Dúvidas

"Eu vivo sem saber até quando ainda estou vivo
Sem saber o calibre do perigo
Eu não sei da onde vem o tiro"
[O Calibre - Os Paralamas do Sucesso]

De longe acho incrível como cada simples acontecimento da nossa vida parece estar ligado à uma belíssima tragi-comédia. Estava com texto pronto, bonitinho e revisado para causar um bom impacto em você, querido leitor - pareci até verdadeira "Miss Simpatia". Meu egocentrismo no tal texto quase beirou a poesia. Não vou contar muito sobre ele, porque pretendo postá-lo depois e não quero acabar com a graça. Mas vou contar o que me fez abrir mão dele, o que, é claro, é muito mais divertido.

Como tudo estava indo bem demais e era só postar a tal criatura, decidi ontem parar, após o jantar, para fazer algo que não posso fazer a alguns (muitos) meses: assistir televisão, e ainda no canal... Bom "você-sabe-qual".

Cansada por conta de uma felicidade chamada "vestibular" e de seu amigo "cursinho", achava que assistir algo de extrema inutilidade e/ou futilidade pudesse fazer bem para a cabeça; "Descanso um pouco" - inocentemente pensei. Só que no fim das contas estava começando no canal Voldemort , para meu azar, um daqueles incríveis filmes brasileiros sobre nossa maior beleza: o tráfico de drogas. Decidi assistir.


Verônica acabou comigo - assim como várias faces da realidade costumam me dar tapas na cara que, depois de alguma reflexão, percebo que foram na verdade fortíssimos socos. Quando acabou, voltei correndo, tentando esquecer de todos meus pensamentos de fúria-indignação-revolução para transcrever meu texto e postar, mas, já nessa altura do campeonato, não me interessava mais nada além de dar o mesmo tapa na cara que senti em todas as pessoas que conheço (e, se possível, nas que não conheço também).

O tapa na cara - você pode estar aí pensando - foi o impacto com a realidade que muita gente vive, com a pobreza, com o perigo e insegurança envolvendo até mesmo crianças, que, com 10 anos, não são mais nada inocentes. Cara, você tem até certa razão. Mas o tapa foi de fato sentido e até transformado em soco depois do resultado da reflexão: dúvidas.

Vamos tentar esquecer aquele bla-bla-bla moral e ético social que você deve estar cansado de ouvir. A partir dessa palavra, nós pensamos sós.

"Tudo é possível, porém devemos estar dispostos a pagar o preço", já dizia um mestre do Kung Fu. Investindo a vida nisso, conseguindo apoio, mobilizando pessoas, arquitetando muito bem planos é possível, ao meu ver, depois de muita luta e a longo prazo, a extinção do crime organizado. Mas a questão é: que preço qualquer um de nós está disposto a pagar? Eu por exemplo: estou disposta a dedicar minha vida toda a isso? A expor meus (futuros!) filhos e família às ameaças e eventuais ataques dos "prejudicados"? Esse projeto é meu, só meu, e é claro, de quem aderir à loucura, mas nossa família... Deve pagar por nossas decisões? Ainda mais essas?

Por outro lado, também há uma possibilidade de estudar muito muito muito, trabalhar, se especializar, etc etc e emigrar para uma região menos violenta. Claro que a gente pode ter apenas uma troca de problema. Trocar assaltos e violência causada pelo tráfico por ataques xenófobos, numa troca de país. Se a mudança foir interna, dependendo da ascendência, podemos ter preconceitos étnicos, sociais, e os tanto mais que todos conhecemos.

Mas vamos lá, boa vontade! Vamos considerar as condições ideais! Será que é certo eu que estudei e tenho um bom nível socio-educacional, simplesmente virar as costas para meu país? Tenho que lembrar o fato de eu ter me formado aqui, ser uma profissional especializada aqui. Eu não devo "devolver" para o país o "investido" em mim? Eu não deveria investir também e promover ações para que outras pessoas possam fazer o mesmo? Não posso dar idéias para melhorarem condições, já que tenho informação pra isso? Além do que cair fora seria uma solução muito egoísta, de certo modo: assim como eu e minha família não gostamos de sentir medo ao andar pela rua, quantas famílias mais pobres não sentem o mesmo medo ou até mais por conviver mais próximas aos tais riscos? Não tendo como se especializar, estudar, crescer, esse povo acaba não tendo também direito de escolha entre sair ou ficar. Por que tenho que ser mais que elas?

Longe de serem motivo para seu susto, devem ser bem consideradas essas questões, sem preconceitos. Hoje vejo com outros olhos o que antes achava repreensível. Quem fica e quer lutar é sem dúvidas corajoso, como policiais e políticos honestos. Quem sai do país ou das grandes capitais, talvez não o faça porque não tá nem aí com a situação dele, mas para segurança sua e de sua família. Cabe a nós decidirmos o que queremos ser. Só não podemos deixar de ter alguma atitude e opinião - caso contrário, nos tornamos mais um acomodado, alienado, de olhos fechados para o mundo. Como aquele que já contava Raul, em outro contexto, ao descrever quem "se senta num trono de um apartamento com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar".

Sejamos diferentes! Que tal dar uma olhadinha em como está nosso mundo?

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